Bioética e Budismo Tibetano
José Roberto Goldim
Em 24 de maio de 2003 foi realizado um
encontro entre alguns participantes do Núcleo Interdisciplinar de Bioética e
membros do Centro Budista de Três Coroas/RS. Foi um primeiro encontro visando
aprofundar conhecimentos recíprocos.
A comunidade budista tibetana de Três Coroas/RS também tem interesse em conhecer melhor o que é Bioética e como ela interage com a sua prática religiosa. O interesse do Núcleo de Bioética é o de conhecer melhor os aspectos budistas relativos ao início e final de vida, dentro do projeto Bioética e Espiritualidade.
Alguns importantes aspectos já foram levantados nesta primeira reunião e, devido a sua relevância, serão apresentados ainda que de forma sumária. Com o desenvolvimento do projeto, novos encontros e textos serão gerados.
Um aspecto fundamental que tem uma relação direta entre a Bioética Clínica e o Budismo Tibetano é o que diz respeito ao período do fim de vida. De acordo com a tradição budista tibetana existe um período após a morte biológica ou física do indivíduo e a liberação de sua consciência. Neste período o corpo não pode ser tocado ou transferido, pois poderia alterar este processo de liberação da consciência. Este período pode durar de horas a dias. As intervenções que fossem feitas no corpo, já morto desta pessoa, ainda poderiam ser "sentidas" pela sua consciência. Desta forma, procedimentos invasivos, além de perturbarem o processo de liberação da consciência, ainda poderiam gerar desconforto, dor e até mesmo sofrimento.
O acatamento desta tradição quando uma pessoa budista tibetana estivesse internada em um hospital e viesse a falecer seria de dificílima execução, para não dizer de impossibilidade, nas condições atuais. Uma alternativa, quando viável, seria a transferência do paciente, ainda em vida, para o seu domicílio ou para uma casa da comunidade religiosa onde esta prática pudesse ser preservada adequadamente.
Na busca de um melhor entendimento do processo de morte de acordo com a tradição budista tibetana e suas inter-relações com a área da saúde, alguns pontos, merecem ser aprofundados, tais como: o fornecimento do atestado de óbito nestas condições, a ocorrência de morte em procedimentos diagnósticos ou terapêuticos, as mortes ocorridas em acidentes, as mortes causadas por doenças infecto-contagiosas, entre outros.
O importante, porém, é ressaltar que para os Budistas Tibetanos, mesmo após a morte biológica, a pessoa ainda persiste, ainda naquele mesmo corpo, por um período de tempo, denominado de bardo, merecendo, como tal respeito à sua dignidade. Este fato deve ser considerado quando da ocorrência de situações deste tipo.
Bioética e Espiritualidade
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de Abertura - Bioética